sábado, 26 de março de 2016

Como será o amanhã?

A grande maioria dos sentimentos que temos em relação ao futuro são gerados  por informações e não por vivências. Se nos esforçarmos cotidianamente a observar a vida-viva mesma, chegaremos, muito provavelmente, à conclusão de que a vida é simples, plena de desafios, os quais, quase sempre, são  por nós superados. Chegaremos à compreensão de que há uma distinção entre a experiência da realidade e a representação da realidade. Entenderemos, talvez,  que aumentamos nossa capacidade de resistência ao prestar atenção ao dia a dia com a mesma intensidade que dedicamos aos noticiários.


A música esquecida dizia: “Como será o amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer?”. Composta para o samba-enredo da União da Ilha do Governador, em 1978, parece que as perguntas, popularizadas na voz da cantora Simone, são cada dia mais intrigantes de responder.

Na TV sempre ligada, desfilam desastres ambientais e sociais intercalados por objetos-do-desejo cada vez mais distantes das possibilidades daqueles que assistem perplexos a composição de uma realidade que só é possível de ser vivenciada através de bits e tintas.

Enquanto isso, na vida-vida e mesma de cada um, a cama é feita, a louça lavada, as crianças seguem para a escola todos os dias. As tarefas do trabalho são realizadas pela chefe de departamento, pelo frentista, pela garçonete, pelo bancário, pela balconista. 

O carro estaciona na garagem, o ônibus para no ponto. O cachorro pula na calça branca, o gatinho roça na perna, a criança corre para o abraço quando se chega em casa. O cotidiano apresenta a dor de garganta, o excesso de peso, a pressão alta. As contas atrasam um mês ou outro, a roupa nova é parcelada, o carnê chega depois da festa, o vestido fica com cheiro de guardado.

Como será o amanhã? A melodia embala as rodas de conversa, onde a resposta incerta se acerta: muito muito pior. As coisas estão insustentáveis, os políticos cada vez mais corruptos. O país ingovernado. Seguem os relatos do que se ouviu dizer: os atentados, as barragens, a epidemia, o assalto, a violência, os preços. As conclusões unânimes se fazem ouvir: em outros tempos, em outrora, não faz vinte anos, tudo era muito melhor. O amanhã? Respostas precisas se inventam e encerram o assunto, dispensando bolas de cristal, jogo de búzios ou cartomantes. 

As conversas se seguem, deixando ouvir outras perguntas e respostas: ...entrou na universidade... cursando engenharia... o netinho está com cinco meses... estamos  encantados... fez quimioterapia, superando, mas ainda sente dores... passou no concurso... foi em intercâmbio... sim, mudaram para uma casa térrea, criança precisa de jardim...

A música invade novamente a memória: “E vai chegando o amanhecer, leio a mensagem zodiacal. E o realejo diz que eu serei feliz. Como será o amanhã? Responda quem puder...
Impresso e publicado no Jornal Correio Trespontano.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Malas a arrumar


Aberta a meio da sala, a mala é máquina do tempo. Nela entram vividos passados. Dela sairão futuros futuros. O presente é máquina-mala no meio da sala. Aberta. Incompleta. Impronta. Quanta coisa caberia na mala? Quanto pesará a mala? Quanto de mala suporta o corpo?

Na mala, a pasta entreaberta é aquivo-memória: bilhetes de avião, ingressos de museus, passes de comboio. Intensidades vividas em arquivo-morto. Quanto de papel necessita a memória? Quanto de memória retém o papel? Como se arquiva um vivido?

No canto da mala, sob saias e lenços, a caixa. Pequeno baú de impressões. Recolha de sensíveis. Armazém de sensações para a pele d'alma: uma concha, sementes distintas, pequenas folhas amareladas de outono, pedras roladas, pisadas pelo caminho, um musgo quase seco, uma flor a se fazer marrom. Impressões que não se querem perder. Percepções de um ido, de um estado. Agora tornado caixa na mala junto ao arquivo. 

Como transportar um vivido? E aquilo tudo que não cabe na mala? Onde se leva o fora-da-mala?  A bagagem em excesso? O não transportável? Quanto carrega um corpo fora da mala?

Em um compartimento da mala, fechado por zíper, está o caderno. Capa azul em tecido bordado, duzentas páginas em branco. Apenas uma única linha escrita. Um local, uma data e o início de uma frase: "Portugal, primeiro de setembro, inauguro essa escrita estrangeira, quereria escrever em bruto, onde as páginas caíssem, desurdidas, num silêncio  posterior...". 

Adágio de um não-escrito recolhido à mala de um ido. Zíper fechado, folhas em branco manchadas com a tinta de uma única marca: "quereria escrever...".

"Quereria" - um possível passado condicionado a um futuro. Tempo verbal guardado na mala. Futuro de um pretérito. Confissão de um quase. Quase escrita desurdida em bruto. Folhas que caem no chão da mala.

Aberta a meio da sala, a mala é máquina de tempos. Invenção de vividos, arquivo de memórias, produção de futuros. Fechado no dentro da mala, o caderno em branco. A página manchada do escrito. Quereria.


A ser impresso e publicado em 22 de fevereiro de 2014.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A tecelã de lidos



          Acomodou-se na cama entre as cobertas, tentava voltar àquela posição. Afofou o travesseiro. Eu só queria que tudo fosse como antes. Puxou a ponta do cobertor. Era seu lema. Virou de lado. Entrega o passado ao passado, Ana!

Há pouco, antes de o pesadelo a acordar, sentia um conforto tão grande na cama, uma quentura de corpo, um esvaziar de mente. Só gostava de conseguir voltar àquela posição e livrar-me dos pesadelos. Deu mais uma volta sobre si mesma. É pedir demais? A cama esfriara. Vá lá. Deixou a rabugice ir-se e acendeu o abajur. Pegou um dos livros que comprara em um alfarrabista na tarde anterior decidida a ler até amanhecer ou voltar-lhe o sono.  “Le Fil de Ariane”, uma brochura de 1945, páginas amareladas, engrossadas pelo tempo. O cheiro a entorpecia. Capa de cartolina desbotada em azul.  Abriu uma página ao acaso.

Sarrilhando o fio e a vida as mulheres aquecem-se com aquela nesga de sol coada pelo casario a bordejar ruas estreitas de múltiplas cumplicidades. Dobam linho e lã e tecem tempos de espera e histórias de vida habitadas por amores, crenças, costumes, medos e esperanças.

Ficou com o livro entre as mãos. O olhar perdido em um tempo ido. À cabeceira, o copo d’água sobre outro livro. Queria um poema. Não podia começar a pensar em fios agora. Tomou um gole e pegou o grosso volume, a capa marcada de muitos copos. Buscou o que queria. A página sabida de tanto lido. Respirou forte à espera do que viria.

Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando.
A chuva caindo.
A casa deserta.

Parou o tempo. Escrever. Queria tanto poder escrever poesia. Lembrou-se do pesadelo. A sensação da angústia sentida voltou-lhe. Folheou algumas páginas até parar diante do muitas vezes lido.

Como posso ter tido tanto sol alguma vez dentro de mim?
Esta saudade dum outro que sorria
sem raiva e ódio
não será mais do que delírio imaginado?
Será a mim que lembro?

Ergueu os olhos da página. O dia começava a clarear. Mais chuva. A imagem do pesadelo voltou-lhe. Levantar-se-ia. Recuso-me a pensar naquilo. Basta aos pesadelos viverem enquanto durmo. Iria vestir-se e caminhar à beira-rio. Sim, iria. Nada como uma actividade física para espantar os fantasmas. Um precoce esboço de sorriso formou-se em seu rosto. Onde foi que li algo assim ontem? Remexeu a pilha de livros acumulada na cadeira ao lado da cama, Quando Lisboa Tremeu, um romance sobre o grande terremoto de 1755. Aqui. Sentada na cama, abriu onde o marcador estava.

Enquanto se corre depressa e se foge do perigo, há uma emoção permanente que atravessa o nosso corpo, uma intensidade interior que nos excita. Mas há também uma tremenda sensação de liberdade, uma alegria esfuziante, que nos contagia e nos absorve os pensamentos.

Os pensamentos. São eles. Já não consigo nem mais dormir. Levantou-se. Iria correr à beira-rio. Sabia onde estava o perigo. Lembrou-se de lido outro. O mundo renova-se também pela tristeza. Acolheria Tejo-rio em seus meandros.

***

Nesta crónica: Mario Dionísio, escritor neo-realista português; Maria Antonieta  Garcia, pesquisadora da Universidade da Beira Interior, Covilhã, Portugal; Domingos Amaral, jornalista e escritor lisboeta; e Maria Gabriela Lhansol, grandes nome da literatura contemporânea portuguesa.

A ser impresso e publicado em 15 de fevereiro de 2014.


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Os fios de Ana



Há muito percebera que a solidão lhe fazia sentir-se estranha. Ria sozinha, pensava em coisas que, enquanto vivia em sua aldeia, jamais pensara. Um exemplo? Pensava em fios. Fios que escorriam de si em direção a tudo o que via. Fios que deixavam rastros. Pensava em fios coloridos, mas também em fios de gelo, que derretiam assim que tocavam a terra, sem deixar vestígios. Talvez apenas um tênue traço molhado que, em poucos momentos, desaparecia.

Enfim, a solidão a havia tornado outra. Justificava-se a miúde, dizendo para si que era devido à prolongada estada em país estrangeiro, sem dominar a língua. Quando pensava nisso, de imediato, fantasiava a própria língua a sair-lhe da boca incontrolavelmente. Divertia-se a princípio até o dia em que, sentada no metro, deixou que a língua se expressasse livremente e foi mal encarada pela senhora à sua frente. Levantou-se ligeira, desceu na primeira estação e resolveu voltar a pé para casa. Resultado: perdeu-se. Preciso imenso parar com esses pensares! Repreendia-se em voz alta para ver se, ao escutar o próprio ralho, despachava-se.

Era uma vida pacata, havia um ano mudara-se para o exterior. Saiu da aldeia como outros recém-formados, a tentar vida fora da pátria. Aqui não há trabalho, Ana! Logo que chegou, usou as economias para tentar o idioma, fazia aulas sem bom sucesso, enquanto buscava emprego. Em pouco tempo conseguiu remuneração junto a uma conterrânea. Passava o dia inteiro sozinha em casa bordando pedrarias e só uma vez por semana ia à patroa entregar o feito e apanhar mais o que fazer. Aos poucos, acomodada ao silêncio, pôs-se a desinteressar do curso  e, enfim, saía apenas às quintas-feiras. Apanhava o metro, viajava oito estações, andava duas quadras. Na volta, com a paga, ia ao mercado e comprava sempre aquela lista: seis ovos, dois potes de iogurte, uma lata de atum, chá de menta, torradas, quatro maçãs, duas cenouras e três batatas. Era o que comeria até a próxima semana, quando repetiria o mesmo itinerário.

Por isso, naquele dia em que o atrevimento da língua a fez perder-se, estranhou quando decidiu voltar a pé para casa arriscando andar por ruas desconhecidas. Saiu da estação e leu na placa o nome da rua. Nunca havia passado por ali. Viu o sol a se pôr e concluiu o Norte. A casa talvez fosse lá, mas onde? Desconhecia. Por um momento o coração parou de bater. Sentiu vertigem. Sem a língua, nada do que sabia adiantava-lhe agora. 

A visão turvou-se. Fechou e abriu os olhos, piscando excessivamente.  Sentiu cheiros. Comida de rua. Teve a impressão nítida de seus pés no solo. Podia sentir o chão, mesmo estando calçada. Levou a mão ao bolso e notou que o gesto lhe trazia sensações táteis e térmicas: áspero quente da lã, liso gelado da seda. Não saber acordava-a. Percebia-se estranhamente sensível. Diria que viva. Estranhamente viva, falou alto.

Voltou a pensar em fios. Um fio encarnado, cor de sangue que a ligava à sua casa no estrangeiro, que a ligava à sua aldeia. O fio vermelho surgido do túnel do metro, indicava-lhe o caminho. Norte. Tinha certeza. Deixou o fio guiá-la. A pele como bússola. Sentia o vento, ouvia o ruído da cidade. O corpo vibrava suave e intensamente. Semicerrou os olhos para ver melhor. Virou uma rua e outra e mais uma vez. Lá estava o 56.


Impresso e publicado em 8 de fevereiro de 2014.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O fio do tempo


Tinha sempre a impressão de que estava atrasada. Olhava as horas com uma frequência irritante, como se seu olhar pudesse alterar o tempo. Porém,não tinha certeza se queria pará-lo ou adiantá-lo. Fosse como fosse, a sensação permanecia. Atrasada? É possível. Talvez devesse fazer o tempo retroceder. Mas até quando? perguntava-se, inquieta, remexendo o relógio, em um gesto que já se transformara em tique nervoso.  

Uma gastura! Sorria um pouco sempre que dizia essa palavra em voz alta, como acabara de fazer. Dá-me um não-sei-quê engraçado. O meio riso fez efeito sedativo. Bocejou abrindo bem a boca e olhou novamente o relógio. Atrasada! Quase certo!  

Levantou-se da cadeira e caminhou até a saída. Parou por um momento, segurando a porta entreaberta, como a decidir se sairia ou não. Gostava da sensação de estar no portal. Nem dentro nem fora: entre. Entrespaços, entretempos, entrecampos, entre. Continuou divagando, hipnotizada com o ritmo das palavras. Entre, entretudo, entremundos.  Dava a falar sozinha, como a cantarolar, até que uma lufada de vento a tirou do transe. Atrasada! Olhou o relógio, batendo a porta. 

O ar frio que descia da montanha durante o ano todo já havia se transformado em vento forte desde o começo de novembro. Há dias, sentia as pontas dos dedos cada vez mais rijas. Quando minha mão esfria, neva antes do tempo. Apressava o passo, sentindo o calor que o corpo produzia,  aquecendo-lhe as mãos. O ar, a condensar-se à sua frente, fê-la imaginar cavalos trotando. Quando miúda, nas manhãs frias de inverno, adorava levantar-se com o sol e ir ao cercado onde o pai dava trato aos animais. Subia no murado de pedras e ficava a ver o pai na lida. Os cavalos ventavam e ela via dragões. Dava gritinhos agudos ao que o pai barafustava: menina! cala-te! vais assustar aos animais. 

Nunca pôde conter-se. Cantarolava, gritava, suspirava e falava sozinha e em voz alta ao gosto da sua imaginação. Mesmo agora, já passada muito de moça, continuava a imaginar e a falar imenso. Atrasada! Tinha certeza!  

Subiu a rua que levava ao lanifício quase a correr. Montado no cavalo-dragão viu o Carlos. Respirou mais fundo. O coração saltava-lhe. Sonhava com o dia em que deixaria a labuta da fiação, vestiria o fato negro, bordado de insígnias, e receberia o título de licenciada em Letras. Carlos estaria lá, a farda cinza de tecelão convertida em um belo trajo de lã merino. Sorriria para ela, amando-a como nem podia sonhar. Ouviu o apito. Atrasada! Tarde mui tarde! Seria advertida. 

Levou a mão ao bolso em busca do pequeno caderno. Nada. Procurou no outro lado. Não estava. Faltavam apenas poucos passos. Já podia ver a cara feia do capataz a marcar-lhe o atraso. Desesperou-se. Não poderia manter-se lá sem a caderneta. Escrever era a única coisa que a fazia suportar. Metia o pequeno caderno entre as saias, o toco do lápis na orelha, escondido sob a touca e, sempre que a intrigante da Antônia distraia-se, anotava seus versos.  Foi quando teve a certeza. Retrocederia o tempo. Apalpou o relógio. 

Um calor bom de primavera aqueceu-lhe os dedos. O cheiro da lã e do tabaco invadia-lhe às narinas. No curral, os homens faziam a tosquia, as tesouras riscavam.   Foi quando ele a viu. Levantou-se devagar, fitou-a, desapedernou a res, acomodou o velo sobre o tendal estendido. O céu azul envolvia a montanha. O corpo dele pesava sobre si. Podia sentir o perfume da terra sob o campo verde que alimentava o rebanho. Sentia seu hálito de tabaco e pensava em fios. Entrefios, entrecampos, entre. Abriu a gaveta: lá estava o caderno.


Em Covilhã, Serra da Estrela, para ser impresso e publicado em 1 de fevereiro de 2014.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Depois de tudo, o que vem?


A região do Alentejo português é rica em história e cultura. Foi palco de rebeliões, guerras e resistência política. A monotonia e a aridez da paisagem refletem-se na marcação do ritmo de vida e na arte. A música tradicional, o cante, muito similar ao canto gregoriano, herança de romanos e árabes, que já viveram por lá, apresenta a melancolia característica do povo alentejano. Muitas das personagens da pesquisa que realizo em Portugal habitam as planícies desertas, nas casas de pedra caiadas, em aldeias de difícil acesso.


***

Andava vagando pela casa, luzes apagadas, pupilas dilatadas, tal às da gata, a fitá-la da frontaria. Ia devagar, fazendo tempo, sentido os pés tocarem o chão frio da tijoleira. O pensamento preenchia-se em ecos, como sonho.

Estava enfadada, já intentara dormir imenso. Desde que ouvira o badalo das  duas é que remexia-se na cama de lado a lado, sem conseguir perceber o sono. Agora, levantara-se e estava a vagar lembranças. 

Vivia sozinha na casa de pedra que havia abrigado a família por gerações, desde antes dos espanhóis. Ouvia o vento lá fora. Lembrava-lhe a avó a entoar o cante no bater manta ao tear. A voz da avó era mesmo o vento da planície alentejana, rasgava o ar e invadia a alma.

Mesmo agora, sessenta anos de outrora, podia ouvir a canelinha percorrer a cala, soltando o fio na trama e o bater do pente a compor-se com o monótono triste do cante.

A avó olhava o vazio toda vez que batia a trama contra a parte já tecida. Que pensava a avó? Nunca soube. O olhar triste percorria cada fio do carapulo atentamente. As colchas da avó eram procuradas em toda península, até por gentes da margem direita do Guadiana.

A mãe contava que o avô fazia a travessia do rebanho, dos campos de Ourique para as longínquas pastagens de verão  de Estrela-Gredos, quando conheceu a avó. O pastor comprou-lhe um agasalho para a longa estadia fora de casa. Era a montanhac mais bem trabalhada e decorada de toda aldeia. O avô apaixonou-se primeiro pelas mãos da avó,  depois pelos olhos tristes da  rapariga tecedeira, completava a mãe, para o desagrado da avó que batia ainda mais firme a  trama e, sem perceber, voltava a perder o olhar no vazio.

A gata deixou a frontaria de azinheira num salto, assustou-a,  trazendo de volta à madrugada. Entrou no quarto de tecer, acendeu a  lâmpada. A luz fraca trouxe-lhe um cheiro de querosene à memória. Quantas mulheres de sua família já haviam habitado aquele quarto? Quantas madrugadas frias como aquela, à luz de velas ou lamparinas, mulheres doíam peito e costas a fazer manta?

Havia um pano no tear. Estava lentamente tecendo um graves. Mesmo hoje em dia, com a vista fraca, ainda punha a teada, vez a vez. Nunca pôde deixar o tear a nú. Era como se faltasse uma parte de si.

Pensou em trabalhar um pouco, mas as costas ardiam-lhe. Sentou-se na cadeira de faia de fronte à dobadoira. Os novelos a acalmariam. Dobar sempre lhe dava sono. Enrolou uma meada à volta dos dedos e começou a girar a peça de castanho entalhada pelo avô.

A voz da avó fez-se ouvir: "Casta fuit, domum servit, lanam fecit". Hoje, entendia a lágrima que caia na face da avó quando entoava o cante. Sim, havia sido casta, cuidado da casa e fiado a lã. Depois de tudo, o que vem?



A ser impresso e publicado em 4 de janeiro de 2014.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A vendedora de panos


Um conto de Natal sempre me assombrou pelos valores que trazia: A pequena Vendedora de Fósforos, de Hans Christian Andersen. A crônica de campo, dessa semana, ambienta-se na atmosfera do conto para dizer de mundos e valores arraigados ao ideário do fazer manual.

Na foto, detalhe de um bordado de Guimarães, com os pontos mencionados no texto. O slogan  criado para a campanha promocional dos bordados desta cidade portuguesa é sugestivo para pensar os valores discutidos na crônica: "Passado em busca de seu futuro".

***

Era noite de Natal. Poderia sentir isso, mesmo que não o soubesse. Os cheiros dos assados vinham das moradas à volta. O de borrego ao forno parecia vir pelo lado do Seu Mário, do 43. O tender, esse tinha certeza, chegava do andar de baixo. Dona Carmela o fazia com calda de damasco, sentia o doce no ar.  Havia também peru e uma torta de maçã e nozes, quase os podia tocar.

Na mesa, o rendilhado da toalha branca como a neve e, sobre ela, fino serviço de jantar, com rosas miúdas a decorá-lo. Um ganso assado fumegava, recheado de maçãs e ameixas pretas. Estava sentada à mesa, perto de uma brilhante árvore de Natal.    Milhares de velas ardiam nos verdes ramos. Era a maior e mais enfeitada  árvore que jamais houvera visto.

Mantinha os olhos fechados, no lusco-fusco do fim da tarde. Os olhos fechados abriam possibilidades imensas. Era o que tinha, dizia de si para si, ainda sob o efeito da magia aromática. Mas o pensamento ácido dispersou o encanto e a  obrigou a abrir os olhos e ver ao redor. O quarto conjugado estava às escuras. Sempre desligava a luz, quando cessava de bordar. Por economia, justificava, em pensamento, ao severo amigo, Damião, vigilante em todas as horas.

Com os olhos abertos, sentiu os aromas atiçarem-lhe a fome. Não havia comido e já eram mais de cinco da tarde. Saiu debaixo das cobertas e foi então que percebeu o quanto o gás lhe fazia falta. Impossível ficar de camisola, neste frio do Norte. Vestiu o casacão e deu poucos passos em direção à geladeira desligada. Se duvidar, deve estar mais quente lá dentro do que aqui, dizia a amiga, Matilda, no seu sorriso largo. A risada da amiga animou-a até abrir a porta e ver duas maçãs e uma porção de papas de sarrabulho. Ainda tem duas, pensou aliviada. Pegou uma e cortou-a ao meio. Sei que tinha um resto de papel amanteigado por aqui. Vasculhou o armário e acabou desistindo. Comerei inteira, aos pouquinhos, durará até à ceia. Não pôde deixar de rir. Matilda abriu novo sorriso largo. Ela sempre a aprovava quando alegrava-se. Essa noite, declarou, teremos maçãs em todas as mesas, do número 56, na Assis Vaz, Freguesia dos Paranhos, Zona do Porto.

Voltou para a cama. Não sairia para trabalhar. Ninguém compra panos de pratos bordados na noite de Natal. O movimento nos cafés da ribeira diminui muito no inverno, ainda mais nessa época de mesas fartas e gentes reunidas, justificou ao atento Damião. E acrescentou: hoje, chega a cessar por completo.

Olhou para a estante e sorriu, para a aprovação imediata de Matilda, a rir seu riso frouxo. Na foto, a menina, Maria do Amparo, futura cientista pela Universidade do Porto, orgulhou-se. Licenciada pela Faculdade de Ciências da Nutrição e da Alimentação. Está a cursar o mestrado integrado, informou, em direção a Damião, logo será doutora. Estuda muito, por isso não está cá, justificou.

Haveria de ter forças para muitos pé de flor, espinha e caseado, necessários para os inúmeros emolumentos da  academia. Cada pano bordado e escudo economizado eram garantia de que a filha jamais precisaria pegar em uma agulha. A miúda não trará a sangrar os dedos ao ofício antigo. Aconchegou-se um pouco mais  sob o pesado cobertor. Fechou os olhos e procurou concentrar-se bem nos aromas.

  A ser impresso e publicado em 21 de dezembro de 2013.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A epifania de Alice


A crônica dessa semana trata de uma diagonal: um traço entre corpo e material. Assunto dos mais densos em minha pesquisa de doutoramento. Coisa que exige estudo e observação. Ainda estou longe de poder dizer  desse imbricado agenciamento. Por hora, segue apenas a narração fabular de alguns efeitos possíveis. A personagem Alice é baseada em pesquisa de campo, realizada aqui em Portugal, acrescida de uma tardia homenagem à  bailarina-performer Ludmila Machado, as cenas de seu "Entrelinhas" fazem parte de um vídeo que acompanha meu artigo no livro: Entre composições: formação, corpo e educação.  O espetáculo, a partir da interpretação de cada uma das ações de trabalho das fiandeiras, realiza uma leitura dinâmica da gestualidade das artífices da fiação. 

Sem que houvesse se dado conta, estava hipnotizada por aquele movimento de corpo. Bem à sua frente, a mulher, de traços grosseiros e mãos grandes, curvava-se em direção à roda. Movia-se ritmadamente, repetindo sempre o mesmo gesto, enquanto falava, explicando sobre seu ofício.

Alice não prestava atenção às palavras, o corpo dizia tudo o quanto ela conseguia ouvir. As palavras eram como ruídos, um ruído a mais em meio a muitos: o sapato da mulher a bater na tábua do chão, a tábua rangendo uma ou outra vez, a engrenagem do fuso sem óleo, a roda assoviando ao girar. 

Aquele som a fazia lembrar de quando o irmão e ela brincavam com a bicicleta coxa do Tio Vicente. Viravam-na com a única roda para cima, e dando impulso, ora com a mão no pneu ora com o pedal, faziam-na girar o  mais depressa que podiam. Logo a mãe, escutando o barulho do giro, gritava da cozinha, vão perder os dedos nessa brincadeira!

Lembrava-se disso, enquanto o zunido da roda de fiar cortava o ar, em meio às palavras de Dona Vitorina Fiandeira, naquela tarde de maio, na visita em que fez com a prima noiva, a encomendar manta para o enxoval. É de pura lã, Alice, feita sob medida, a da loja nem se compara... 

Foi quando aconteceu. Anos mais tarde, quando lhe perguntaram o porquê, ela não soube explicar bem, mas sabia que tinha sido ali, entre palavras surdas e o zunido da roda.

Já se passavam mais de dez anos e a imagem ainda lhe era clara, via a cena completa à sua  frente: enquanto uma das mãos da mulher pegava o manelo de lã do cesto, a outra parava a roda de fiar. Em seguida, ajeitava o fio torcido no fuso, unindo a ponta solta da maçaroca a um novo chumaço. Então, ainda curvada, dava um grande passo para trás e fazia a roda girar, enquanto o manelo de lã em sua mão desaparecia, fazendo surgir o fio. Cada manelo rendia-lhe uma boa metragem de fio fino, surgido de um movimento contínuo, de uma certeza de corpo que a hipnotizara. Aquele corpo, aqueles gestos, algo ali fez desaparecer o tempo. Não sabe quanto permaneceu nesse devaneio, mas o instante tornou-se sempre. 

Quando a prima a cutucou, despertando-a do transe, ela  soube. Tivera uma epifania. Soube o que faria por toda vida. Soube que nada mais a interessaria dali para frente a não ser descobrir como aqueles gestos eram capazes de plasmar-se corpo. Como aqueles movimentos se deixavam conduzir pelo material. 

A campainha soou avisando que faltavam cinco minutos para o primeiro ato. Precisava terminar de maquiar-se e aquecer-se. Amarrou as sapatilhas ainda ouvindo o chiado da roda.

A ser impresso e publicado em 14 de dezembro de 2013.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Alma de atriz

A crônica dessa semana traz uma personagem inspirada na música Alma de atriz,  de Haroldo Jr. ( 1963 - 4 de novembro de 2013 ).



Levantava-se antes do sol. Quando escutava o alarme do despertador, um frio percorria-lhe a coluna. Mais um dia.  Sempre assim.  Colocava-se sentada na cama e imediatamente pensava naquilo que não era. Antes mesmo de abrir a janela sabia: não aconteceria jamais.

Fazia um pequeno verso que havia aprendido com o irmão quando pequena.  Não lembrava se algum dia tivera rima, com o passar dos anos, fora mudando-o,   tomando posse das palavras dadas,  tornando seu o dito de outrem. Agora, não sabia mais o que era dela,  o que era do autor. Quem mesmo?  Algum dia soubera...

Respirou fundo como que se preparando para entrar em cena, a cena de mais um dia sem luz ou cenário. Balançou a cabeça a espantar os pensamentos tristes e recitou mentalmente: "Há sol em mim"... fazia um esforço para que não fossem apenas palavras... "A vida é bela"... queria convencer-se disso... "Eu nasci para amar"... teve um tempo, que não conseguia declamar esta parte sem deixar cairem as lágrimas... "Só faço o bem"... Era a parte da poesia com a qual podia concordar sempre. Se considerava uma pessoa boa, o que nunca evitava que fosse agredida ou desprezada constantemente. Pensava em tudo pelo que sempre passava e tinha que se esforçar para não cair no choro, um nó apertava-lhe a garganta... Para se controlar,  repetia o verso inteiro, desde o início, concentrando-se bem: "Há sol em mim, a vida é bela, eu nasci para amar. Só faço o bem. Só me fazem o bem"... repetia aquela última frase,  suplicando para que se tornasse verdade.

Desde que o irmão a deixara, após uma longa batalha contra à doença,  tomava seu desejum sozinha. Na noite anterior ajeitava a mesa, para poupar-lhe qualquer correria pela manhã. Não suportava ter de apressar-se para fazer o que não gostava.

Sentia o cheiro do café ficando pronto na cafeteira. A mãe nunca aprovara café de cafeteira, não tinha gosto, dizia. Reclamava sempre que tia Carminda,  a única a ter cafeteira elétrica na família,  lhe oferecia.  A mãe tomava fazendo caretas e a tia ria uma risada gostosa, achando graça na rabugice da irmã.  Fora aquela risada aberta que, anos mais tarde,  quando a mãe se fora,  a levou a comprar a cafeteira vermelha brilhante.  A mãe não iria aprovar,  dizia o irmão,  fazendo um trejeito com a boca que quase parecia um sorriso. Ela sabia, e era isso que, ainda hoje, fazia do momento em que o aroma exalava, um pequeno êxtase.

Êxtase que sentira na noite do festival, quando fugida de casa,  subiu ao palco do grande teatro. Lá, sentiu pela primeira e única vez que estava viva. Não importara que a mãe havia descoberto e mandara o irmão a buscar.  Não importara que houvessem dito que jamais passaria no teste. Estar ali, flutuando em luz, era puro êxtase. Nasci para viver sob a luz de um refletor, respondia, quando era entrevistada, na sua vida de fantasia, enquanto deixava a água fria molhar-lhe a pele enrugada. Para o espanto dos jornalistas, sorria, um sorriso aberto como o da tia, e dizia: se me acende o fogo, faço o dobro de mim. Os flashes disparavam e terminava a entrevista com uma frase que,  sabia ela, se tornaria destaque: o amor é um palco,  tem de encenar sem ter ensaio... fechava a torneira, as últimas gotas que escorriam lavavam o sal das lágrimas. Tinha de apressar-se, o novo gerente não tolerava atrasos.

A ser impresso e publicado em 7 de novembro de 2013. 

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A vertigem e o rigor

Recentemente, conheci uma doutora renomada e apaixonada pelo que faz. Trabalha com pesquisa, coordenando um importante instituto na universidade.  Sob sua supervisão, pesquisas instigantes são realizadas, evolvendo cultura e linguagens. Entre elas, as narrativas que circundam as artes manuais, razão pela qual aproximei-me de seu programa. Atenciosa, recebeu-me em seu moderno gabinete, confidenciando-me que, hoje em dia, é bastante difícil encontrar pesquisares das artes manuais que, além de pesquisar, sejam manuelistas.  Ao ver meu caderno-projeto de primeira qualificação bordado, costurado e com partes escritas à mão, perguntou-me: E os colegas? O que dizem dessa forma de expressão? Aprovam ou acham que falta rigor? A crônica dessa semana é uma ficção inspirada nesta pergunta.

***
Só quem a conhecia muito de perto, o que era raro, poderia perceber, no movimento leve que fazia, batendo a ponta do lápis na capa do livro, um quê de impaciência. Há muito acostumara-se a manter-se impassível, mesmo quando, no íntimo, queria estremecer. O aluno demorara demais para encontrar a página e continuar a responder à arguição. Já passara de uma da tarde e as taças de café preto que ingerira durante a manhã começavam a causar-lhe indisposição.

Sentia-se duplamente frustrada. Primeiro, diante da demora no andamento da banca, depois, pela própria estrutura de avaliação que desaprovava. No entanto, sempre fora voto vencido nos encaminhamentos dados pelo programa de pós-graduação ao qual pertencia.

Sem dúvida, pensava, levando a mão ao estômago dolorido, não se pode avaliar alguém pelo número de horas que é capaz de ficar na biblioteca.

O aluno voltara a falar e ela descobriu-se com fome. Se demorar, a cabeça vai começar a doer. Era sempre assim: tomava café demais, comia de menos e depois ainda precisava recorrer aos analgésicos para dar conta de chegar ao final do dia com as tarefas acadêmicas cumpridas. Esse ritmo de trabalho não considera as mínimas necessidades de comer e dormir, reclamava para si, enquanto, e ao mesmo tempo, atribuía o mal humor à baixa de glicose que começava a se fazer sentir pela irritação excessiva.

Já nem escutava mais o colega que, dedo em riste, questionava o avaliado sobre sua falta de rigor ao usar um conceito. Rigor, rigor! Tivesse ela a coragem de dizer - ali mesmo em uma banca de seleção para o doutorado - o que pensava dessa vontade de rigor. Bandeira que muitos acadêmicos levantavam em nome da moral e dos bons costumes do conhecimento. Ia desmaiar. Sabia. Começava a ver pequenas luzes brilhando pela sala de defesa. A vertigem crescia: era cansaço demais.

Sentiu um calor agradável e conhecido a envolvê-la. Abriu os olhos devagar. Viu, na luz suave da tarde de inverno, a mãe e a avó, sentadas, cada uma de um lado, tendo ao colo o grande tapete que bordavam juntas. O calor do tapete em seu colo, o cheiro da juta e a aspereza da lã a faziam querer desmaiar. A vertigem crescia: era prazer demais, não podia aguentar-se. 

Nessas momentos, ouvia a voz da mãe a dizer-lhe: Ma chère, passe-moi les ciseaux, s'il vous plaît. Assim, sempre que se perdia em sensações, a mãe, carinhosamente, usava o francês para despertá-la. Era como a lâmina afiada da tesoura no tecido: cortava sem ferir. Dessa maneira, sem perceber, aprendeu o francês, a costura e o bordado.

Um leve toque em seu braço a trouxe de volta à sala de defesa. A sessão terminara, iriam deliberar. Seu voto a favor e dois contras: não aprovado, faltava-lhe rigor. Rigor? Teria coragem? Sabia que não. Doze anos! Era o quanto restava para aposentar-se.


Impresso e publicado em 26 de outubro de 2013 no Correio Trespontano.


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A diagonal atelier-cozinha


Em Lisboa, bem ao lado da Catedral da Sé, no centro histórico da cidade, tem uma loja de peças em lã de carneiro que faz parte do meu itinerário de pesquisa:  a ChiCoração - Sé.  A proprietária, Otília Santos, é uma daquelas mulheres que conseguem agenciar a vida-viva em sua plenitude sem deixar de afirmar o caos cotidiano de uma vida de empresária, artista e dona de casa. A crônica de hoje é uma ficção inspirada em seu cotidiano e será a chamada do capítulo da tese que trata dos processos  metodológicos que adoto na pesquisa de doutorado que realizo na Universidade Federal de Juiz de Fora e na Universidade de Lisboa.


***


Os alfinetes na boca espetavam-lhe vez ou outra a língua. Gostava daquela dor, lembrava-lhe de que estava viva. Não a deixava esquecer de que afrouxar as fronteiras entre ser dona de casa, empresária e artista da moda, era quase sempre caótico, doía, custava, mas a fazia sentir-se viva.

Lutava para dar caimento a uma gola, mas a malha teimava em seguir outra direção. Há muito sabia que, não adiantava o que fizesse, a malha sempre vencia.  Naquelas horas, atribuía a teimosia da gola ao curso de design que nunca frequentou. Bobagem, dizia depois, de si para si, as estagiárias de moda que cá estiveram, tinham  desenhos perfeitos e elaborados, belas ideias, mas não sabiam como fazer para que saíssem do papel. Por isso, respirou fundo e deixou-se levar pelo fluxo da malha. Queria tanto a gola de um certo jeito... ideias. Pudesse ela trabalhar sem ideias prévias. Somente entrar em contato com os elementos e deixar-se conduzir junto ao movimento e, aí sim, abrir-se às ideias....

Um cheiro forte invadiu o atelier, situado logo abaixo da cozinha, na grande casa, em frente a Serra de Santo Antônio. O arroz! às pressas, cuspiu os alfinetes em cima da mesa, deixou a malha fazer o que bem quisesse e subiu as escada de um fôlego só: tarde demais! Pegou a panela fumegante pela alça, queimando um pouco a mão. No sumiço repentino do pegador, agarrou o pano de prato e completou o trajeto até a pia. Lançou um jato de água sobre a pedra fria, pousou a panela quente sobre ele e escutou o chiado com um misto de encantamento e desespero.

Tarde demais! mais uma vez, o arroz queimado! O marido tinha razão: estás sempre com a cabeça à lua, mulher! Ainda   tentando raspar a crosta queimada do fundo da panela, lembrou-se de que havia esquecido de acrescentar arroz à lista de compras. Foi o último.  Faria macarrão. Um bom macarrão instantâneo resolveria o jantar. 

Então percebeu, no movimento da água sobre a panela, a solução: está lá! A gola! Sim, basta-me isso e a malha cairá de maneira especial. Desceu as escadas rumo ao atelier aos saltos de dois em dois, agarrou os alfinetes em cima da mesa, um deles a espetou bem em cima do recém-queimado da mão. Sentiu dor, sentiu vida. Está cá: a gola caidinha, não do jeito que havia imaginado como ideal, mas ainda melhor: o perfeito possível.

Estava alegre quase eufórica. Criar o possível! Era isso que a mantinha plena e viva. Cozinharia um macarrão chinês com legumes e soyo para o jantar. E acenderei as velas. Uma grande noite!

Se o marido perguntasse o que estavam celebrando, com o jantar especial, apenas sorriria. Ele não entenderia a alegria que se dá na mistura de um arroz queimado com gola de malha, queimadura e espetadas. Difícil explicar a potência que sentia.



Para ser impresso e publicado em 19 de outubro de 2013 no Correio Trespontano.


Para acompanhar o desenvolvimento da minha pesquisa aqui em Portugal, acesse: http://cadernosdeartifice.blogspot.pt/. O blog é um e-caderno. Um dispositivo de apoio às anotações e experiências de minha pesquisa de doutorado em curso no Brasil, na Universidade Federal de Juiz de Fora e em Portugal, na Universidade de Lisboa. A fase portuguesa da pesquisa apresentará as fiandeiras antigas.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A varina do Tejo



Uma réstia de luz atravessa o madeiramento da janela, avisando que o tempo passou. Por um breve momento, assusta-se, pensando ter perdido a hora, mas lembra-se que está acamada. A garganta doía-lhe e um leve calafrio, percorria-lhe a espinha.

Estava na cama, sob as cobertas, mas o corpo sentia falta do vento e do rio. Acostumou-se a acordar antes do sol e ir para a margem esquerda do Tejo, no cais da freguesia, aguardar as pequenas barcas e faluas que trariam os charrocos, bogas, douradas, corvinas e pardelhas que vendia, no ponto em frente ao liceu, desde que era miúda e franzina.

Todo dia, nos últimos 35 anos, quando a vila ainda despertava, já estava ela, com seu avental de burel, sentada em seu caixotinho de madeira, ordenando os peixes por tamanho e espécie, na padiola que Seu Gerônimo, biscateiro, ajudava-a a montar por cinco escudos. 

Virou-se na cama e pensou, estava velha, o corpo doía-lhe inteiro. Além disso, continuava a divagar, havia mais de dez anos que as moedas de euro começaram a circular na sua banca e ainda confundia-as com as de escudos, as quais sabia reconhecer até de olhos fechados. As moedas de euro, arrazoava, eram desprovidas de história, símbolos vazios, não pareciam trazer em si uma força monumental,  faltava-lhes alma.

Deixa de besteira, disse, dando uma raspanete em si mesma, agora deu para bacorar? Está lá, que não vá trabalhar, mas aproveite o tempo para dormir ou fazer coisa que o valha. 

Riu sozinha, era como ouvir a voz da mãe, sempre a chibar. Sentia falta, acostumara-se aos raspanetes da velha. Ainda muito novinha, ao ver passar as meninas do liceu, com suas fitas engomadas e seus livros de capa dura, costumava dizer à mãe: dia desses, desmonto a padiola e vou para a escola. Não ia, a mãe sabia e ralhava. O cheiro do peixe impregnava-lhe a vida. Nunca seria menina de fita brilhante e saiote plissado.

E assim, a vontade de deixar a banca foi amainando, o tempo passando. A vida escorreu junto com a água do balde que usava para lavar a calçada no fim da tarde quando a venda cessava.

Um espirro trouxe-a de volta ao tempo do dia. Precisava levantar-se e preparar alguma coisa para comer. Não deu jeito. Ficou na cama, entre dores presentes e passadas. Variando as ideais entre os tempos do agora e do ontem.  



Vila Franca de Xira, Portugal, 10 de outubro de 2013. 

A ser impresso e publicado em 12 de outubro de 2013 no Correio Trespontano, Minas Gerais, Brasil.

Cheiro de lã



Dona Vitoria Maria, a última fiandeira em atividade na região de Mértola,  Alentejo português foi minha primeira entrevistada na série que tenho planejada para a fase portuguesa da minha pesquisa de doutoramento. Dona Vitorina aprendeu o ofício com a mãe, hoje com 94 anos, permanece atenta à lida da filha: "Fui eu quem ensini". Dona Perpétua Maria, orgulhosa do ofício, não sabe como aprendeu. Estava lá, com a mãe, desde pequena, fazia uma coisa e outra, aprendia-se na lida. Ainda hoje, está Dona Perpétua a fazer as meadas no sarrilho. Acima, Dona Vitorina Maria esguedelhando a lã, antes de untar e cardar. Fases que antecedem e preparam a lã para ser fiada.


Quando a penumbra não lhe permitia mais enxergar, ela acendeu a lamparina com um gesto que a fazia lembrar da avó. Parecia ver, pensava, a mão da avó, magra e enrugada, a riscar o fósforo e o aproximar da mecha com um movimento levemente trêmulo.

Agora, ela mesma era a avó. Olhava sua mão a gestuar e não entendia como aquelas mãos fortes, acostumadas ao trabalho, haviam se tornado assim, tão magras, enrugadas e trêmulas.

O tempo é sonho, dizia de si para si. É sonho, repetia, enquanto a luz bruxuleante da lamparina enchia o quarto onde, desde muito miúda, via a avó e a mãe a fiar. A vida toda acostumou-se a ouvir as vozes das mulheres de sua família, reunidas naquele quarto pequeno e entulhado, a cuidar da lida do fio. 

Quando o velo chegava do campo, trazido pelo pai ou pelo tio, o cheiro forte do rebanho preenchia o quarto. A mãe e as tias logo tratavam de lavar a lã na velha tina de madeira que ficava no quintal de trás. Depois de seca, batiam-na  para terminar de soltar os ciscos,  esguedelhavam-na com os dedos ágeis e a  arrumavam em camadas no chão, em cima da lona amarela, para o banho de óleo. Ainda podia ver o riso da avó quando ralhava com tia Eulália por deixar manchar o vestido ao untar de azeite a lã.

Foi tia Eulália a primeira a deixar a lida. Um dia gritou com a vó, lembrava-se bem, coração ainda aos pulos: "Vou-me embora estudar!". A tia bateu a porta atrás de si e só voltou tempos depois para apresentar tio Geraldo e o bebê Jessé.

Também as outras  tias se foram. Por muito tempo, só se ouvia o barulho da carda da mãe e da vó. Passados anos, a cardação da vó silenciou. Ela ficava lá, quieta, olhando a mãe passar a lã de uma pá a outra e armazenando no colo o amontoado das nuvens que virariam fio.

O cheiro da lã, o ruído das cardas e o girar da roda a envolviam. Quando mocinha,  também ela tentou ir,  mas o quarto não a deixava. Não podia imaginar a vida fora dali. Assim, desde muito, estava só entre a lã e os fios.

Mértola, domingo, 29 de setembro de 2013.

Impresso e publicado em 5 de outubro de 2013 no Correio Trespontano, Minas Gerais, Brasil.

As artes perdidas





A importância dos trabalhos manuais no currículo Waldorf leva em consideração os diferentes modos de existir produzidos a partir do contato com o produto industrializado e o produto feito à mão. A mera imperfeição de trabalhos manuais é uma marca de dignidade e é testemunha das limitações que fazem do artesão - e por extensão de todos nós - um ser humano único. Quando o aluno dos primeiros anos do Ensino Fundamental faz um forrinho redondo de crochê... inevitavelmente haverá falhas e correções e revisões são feitas. Essas fornecem lições em humildade - no sentido original da palavra - derivada do latim humus que significa 'terra'. A experiência de falibilidade do aluno é uma experiência que envolve seu relacionamento com o resto da natureza. É este relacionamento, esta conexão, que Rudolf Steiner, idealizador da Pedagogia Waldorf e outros pensadores de sua época perceberam que a máquina poderia alterar.


Triste nome: artes perdidas. Mais triste ainda é ver as artes perderem-se onde elas mais deviam ser preservadas: sua origem, como é o caso aqui da Europa. São chamadas artes perdidas os trabalhos manuais e/ou domésticos em que as pessoas se envolvem com as mãos e que estão se perdendo neste mundo de tecnologia e terceirização de serviços.

Atividades como costura, culinária, organização da casa, bordado,  jardinagem, tricô, crochê, carpintaria, entre tantas outras, são cada vez menos presentes no dia a dia das pessoas e, por isso mesmo, consideradas artes perdidas.

Na educação convencional, as  artes feitas pelas mãos humanas são pouco ou quase nada valorizadas e assumem um lugar de menor importância no ensino escolar. As poucas manualidades que ainda não se perderam completamente entram para o currículo como recurso lúdico ou apoiativo e não como parte importante do plano de ensino.

É o caso da jardinagem e dos plantios para os estudos do meio, as atividades de ecologia e educação ambiental.

A educação Waldorf é citada  como um dos poucos exemplos onde ainda pode se encontrar os trabalhos manuais como parte integrante de um programa educacional. Lugar que ocupam na medida exata de importância das demais disciplinas. Mesmo assim, nos últimos anos, até nas escolas Waldorf, as artes manuais vêm perdendo  território e tempo em sala de aula. E um dos principais motivos dessa perda de valor é a pressão dos sistemas avaliativos institucionais que, ao enfatizar mais o conteúdo intelectual do que o conhecimento corporal e intuitivo, acabam, em última instância, homogeneizando os conteúdos disponibilizados e as vivências que são oferecidas pelas escolas aos seus alunos.

A perda das artes desinveste o ser de sua capacidade de individualização. Cria modos de existir submissos ao consumo. O mundo passa a ter valor de compra, pois só pela compra o ser pode estabelecer contato com seus pares e sua cultura. A pergunta que cabe fazer é: a quem favorece esse tipo de estrutura social? Certamente, não aos alunos que perderem a arte.  

Vila Franca de Xira, quinta-feira, 27 de setembro de 2013. Impresso e publicado em 28 de setembro de 2013.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A qualificação e o pão



Os doutores chegaram com seus canudos em busca dos conceitos, dos livros lidos, das citações de si mesmo. Não tinha. Tinha cheiro, tinha cor, tinha pão, vassoura na mão. Os doutores, em suas togas apertadas, homenagearam aqueles que passam oito horas por dia lendo os livros difíceis, são difíceis, minha filha, eu sei, mas valem à pena, falam da vida. Os tecidos expostos, intocados. Variedades de cores e texturas para serem sentidas, perguntadas, mexidas, foram esquecidas entre as páginas dos livros. A mesa posta, variedades de sabores para serem degustadas, cheiradas invadindo as anotações precisas. Uma sala de aula feita por mãos que passam o dia entre a cozinha, a biblioteca e a oficina. Ler-cozinhar-escrever-costurar-varrer. Fazeres manuais. Mãos empoderadas pelo cotidiano. Os doutores viram, sentiram, mas não entenderam. O que isso tem a ver com o corpo de que falam os livros? Estamos falando de outro corpo. Não este que tece, fia, come, cozinha, varre. Leia mais, minha filha, você vai entender: não há nada fora dos conceitos. 


***


Coloca mais um pouquinho de leite. Quero picar o abacaxi. Acho que essa massa está um pouco pesada. Quer colocar mais água? Alguém vai usar o liquidificador agora? Carinhos.

Na Universidade Federal de Juiz de Fora, um exame de  qualificação de doutorado era preparado. A cozinha movimentava-se. Bolsistas de Iniciação Científica e Treinamento Profissional, mestrandos, doutorandos, doutores, mangas arregaçadas, mãos ocupadas com o fazer culinário. A conversa derivava: que sujeito, que educação? Quantas xícaras? A Formação de Professores como Linha de Pesquisa atravessa, mas como dizer da formação de professores sem forma, sem fôrma. Você pode untar essa fôrma redonda para mim? É para usar óleo ou margarina? Que formação é essa que discutimos? Não diremos mais Formação de Professores, pois não temos a forma, nem a fôrma  que se espera, nominável e segura para o ofício. Apostaremos na invenção  da atualidade dos encontros com seus meios, no meio, sem fins seguros, sem fim que disforma, é disforme, mas inventa formas sempre em devir*. Olha, está uma delícia essa manga. Experimenta a massa. Acha que está boa de sal? Amizades.

Alguém me ajuda a fazer essa urdidura? Mordidura? Urdidura: os fios presos ao tear que serão a base para a trama na tecelagem. Que você vai fazer com isso? Vai para a exposição dos fazeres da pesquisa. Ah... faço a urdidura-mordidura. O bolo está pronto?

A mesa posta, os pães recém-assados perfumando a sala de aula. Aromas, cores, texturas. Um exame de qualificação inicia com a examinação dos sentidos, sensações outras ao encontro dos corpos formados e conformados em uma educação com fôrma. Alegrias.

Como qualificar com o corpo todo? Minha filha, o corpo de que estamos falando não é o corpo físico. Existe outro? Existe um corpo que pensa e não cheira? Existe um corpo que estuda e não come? Existe um corpo que lê e não anda? Que corpo se fala em uma qualificação? Afetividades.

Sujar o chão da sala de aula com pão. Manchar o chão da sala de aula com tinta. Varrer os fios e as migalhas. Atravessamentos de fome, prazeres vivos no cubo da aula. Um doutoramento varre, lava, costura. Um doutoramento-educação, onde educação quer e faz vida-viva cotidiana.


Esta crônica estará impressa e  publicada em 2 de março de 2013.
* Com Tarcísio em "O que atravessou o Travessia".








domingo, 11 de novembro de 2012

Aeroportos masculinos


Já passei nessa temporada pelos aeroportos do Recife, Gilberto Freyre; Fortaleza, Pinto Martins; Natal, Augusto Severo; Salvador, Luís Eduardo Magalhães; Rio de Janeiro, Antônio Carlos Jobim; Zona da mata, Itamar Franco; Navegantes - Ministro Victor Konder, Porto Alegre, Salgado Filho, e não encontrei nenhum com nome de mulher. Eu poderia passar por todos os grandes e pequenos aeroportos do país e não encontraria nenhum batizado com o nome de uma importante professora, médica, atriz, poetiza, dona de casa, artista, cientista...



Inda estou viajando, do Nordeste ao Sul do país e em poucos dias volto ao Nordeste. Tentei fazer um levantamento de em quantos aviões já subi, desde que saí de casa no meio de outubro, mas desisti. É tanta conexão que confunde a gente.

Talvez, se juntasse todas as horas que passei em aeroportos esperando subidas e decidas, dava para ter feito a volta ao mundo de teco-teco. Talvez, mas o fato é que estou escrevendo essa crônica daqui, desse ambiente regado a auto-falantes informativos, cafés de máquina e cadeiras pouco confortáveis.

Leio muito nesses momentos, mas fico um bocado à toa também. Olhando, olhando e, vez em sempre pensando um misto de nada com coisa nenhuma. Bão também para quem está no meio da escrita para a primeira banca de qualificação de doutoramento, obrigada a ocupar a mente com assuntos "sérios", filosóficos, sociológicos, epistemológicos e todos esses lenga-lengas que os intelectuais adoram e que tento me aproximar com meus fios, agulhas e tecidos.


Enfim, o fato é que é inevitável, nesses saguões de aeroportos, pensar sobre os aeroportos. Foi o que fiz. Fiquei pensando sobre o nome dos aeroportos pelos quais passei. Vejam só: Rio de Janeiro - Antônio Carlos Jobim; Recife - Gilberto Freyre; Fortaleza - Pinto Martins; Natal - Augusto Severo; Salvador - Luís Eduardo Magalhães; Zona da Mata - Itamar Franco; Navegantes - Ministro Victor Konder; Porto Alegre - Salgado Filho. Notou? Percebeu alguma característica comum? 

O que todos esses nomes têm de semelhante? Isso mesmo! São todos nomes de homens. 

Essa característica me levou (delírio de quem tem de ficar inventando o que fazer enquanto a conexão não acontece), pois bem, me levou a fazer um levantamento de todos os aeroportos do país, já que a ausência de um aeroporto feminino poderia ser somente coincidência. 

Então, pasmem: dos 722 aeroportos listados pela ANAC - Agência Nacional de Aviação Civil, nenhum - repito - NENHUM tem nome de mulher. Temos deputados, músicos, poetas, governadores, senadores, prefeitos, mas não temos nenhuma mulher que tenha feito jus a batizar um aeroporto.

É uma pesquisa de saguão de aeroporto, mas dá o que pensar, não é mesmo?

É bom dizer que, na lista da ANAC, há nomes femininos sim. São 19 aeroportos com nomes de mulheres, todas santas - repito: todas SANTAS.

 Pode-se concluir, antes de entrar no avião que, mulher para virar aeroporto só sendo santa.


Impresso e publicado originalmente em 3 de novembro de 2012 (atualizado hoje, após mais três aeroportos masculinos).  

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um dia, um padre, uma travessia


Um dia, um padre, uma travessia. 
Um padre, uma travessia, um dia. 
Uma travessia, um dia, um padre. 
(Homenagem a Padre Victor, o padre santo, de Três Pontas, MG).

Pela estrada seguia o padre um dia, caminhava. Caminho sem marcas. Não cumpria trajeto, fazia travessia.

Em cada beira de poço, o padre parava, se refrescava, olhava o fundo e pensava: é aqui. E ficava. Ficava à sombra de árvores raquíticas, quase sem sombras. Ficava à beira do poço, à beira do caminho, na travessia.

Depois, passado um tempo, o padre seguia. Ia ele, assim, um dia, dois dias, três dias, anos. De poço em poço, também de ribeirinho, ia ele, de beira em beira, pelo caminho. Não cumpria trajeto, fazia travessia.

Vez ou outra, derivava da estrava principal e embrenhava pelo mato. Invernava dias sem fim, sem trilha. A mata  raquítica, seca e retorcida confundia o caminho, fazia caminhar delicado, olho na ponta do pé.

Seguia assim, na bússola do pé, ouvido atento aos rumores do vento. Logo, sentia o cheiro da água e pensava: é aqui. Sentava à beira do riacho, na sombra raquítica da caviúna retorcida e ficava. Ficava à beira do rio, à beira do caminho, na travessia.

Depois, passado algum tempo, o padre seguia. Ia ele, assim, um dia, outro dia, muitos dias, anos. De campo em campo, também de mata, ia ele, de beira em beira, pelo caminho. Não cumpria trajeto, fazia travessia. De vez em quando pensava: é aqui, e ficava.

Havia dias em que aparecia vivente na beira do poço, colhendo água com as mãos. O padre oferecia a cuia, único utensílio do embornal vazio. O vivente aceitava. Tomava a água fresca e compunha gratidão. O padre sorria, tendiquê. O vivente partia, refeito. O padre ficava.

Depois, passado outro tempo, o padre seguia. Não cumpria trajeto, fazia travessia e de vez em quando pensava: é aqui.


Impresso e publicado originalmente em 28 de setembro de 2012, no Correio Trespontano.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Um pequeno livro bordado

Bordando o corpo de Anelice: experimentações sobre a escrita do ti. 2012, 100 páginas. 

À venda em versão impresa e ebook: 

O livro relata exercícios de escrita coletiva que pretendem descolar a centralidade da função de autoria, abrindo-a para uma escrita do fora, no encontro do si e do outro. Escrever, nessa perspectiva, consistiria em uma experiência de transformação da própria escrita e, consequentemente, do que se pensa e do que se é. Junto às filosofias da diferença, exercita o dar língua aos movimentos invisíveis dos afetos que vazam dos corpos-escrita em movimento. Treino incessante para fazer vibrar a escrita acadêmica rente ao campo intensivo da pesquisa que cartografa o corpo-fazedor nas artes manuais. O relato acontece como um bordado, na superfície de uma outra escrita, por cima do ensaio-tese de Anelice Ribetto (2009) , enfrentando os desafios de experimentar a pesquisa em educação, na agonia de um fazer que se mostra estranhado e atento ao pensar da pesquisa e da escrita acadêmica. Dessa forma, o livro se converte, ele mesmo, em um exercício afásico e rizomático de escrita, falado na língua do outro, em um encontro intempestivo, acontecimento disparador de efeitos múltiplos. Efeitos que, talvez, possam causar instabilidade aos conhecimentos que já são previstos, esperados. 


Férias? Bobagem... Descanso? Bobagem... Sabe aqueles dias em que tudo está de pernas para o ar: empregada doméstica faltante, visitas, telefone que parece um call center, crianças em final de férias, tarefas por fazer para todo o lado?

Pois foi em um dia assim - assim, não, ainda pior do que minha capacidade de cronista permite ilustrar, pois foi em um dia muito pior que ele surgiu. 

Estava tudo caotizado: prazos esgotados para o cumprimento de tarefas da universidade. Eu totalmente desacostumada das tarefas do lar, o que as torna bem mais complexas... enfim, em meio a tudo isso, recebi um email que dizia: "25 de julho - Dia do Escritor". Não sou do tipo que liga para essas datas comerciais, o leitor sabe, mas pensando agora, só pode ter sido um surto desses que o corpo inventa para tirar a mente de uma realidade difícil de suportar: uma bolha-fuga. Foi em um desvario assim que editei o pequeno  livro. 

Dá para acreditar? Escrever um livro e tê-lo editado nas próprias mãos, até bem pouco tempo, era um sonho para um escritor. Agora, isso se tornou tão simples que, qualquer pessoa,  com menos de trinta reais, publica seu livro e o distribui em menos  de duas horas, mesmo em dia de empregada faltante, crianças de férias, roupa para lavar e tese de doutorado para escrever. Não é incrível? É, pelo menos eu achei. Achei, fiz, editei e convido o leitor a folheá-lo, agora mesmo. 

"Bordando o corpo de Anelice: experimentações sobre a escrita do ti" é meu relatório de pesquisa do ano passado que, para testar o site de publicação de livros, resolvi editar em formato pocket.

Ontem, quando o livrinho chegou, achei o máximo. Comecei a lê-lo e não é que a potência do formato livro me pegou? O texto, de repente, ganhou corpo, ficou gostoso e até mereceu ocupar as páginas desse Correio para divulgá-lo.

Vou ficar feliz se o prezado leitor for até a loja virtual dar uma olhadinha nele. Acho que vale. E vou ficar ainda mais feliz, se o leitor, se inspirar no meu exemplo, escrever o próprio livro e publicá-lo.

Impresso e publicado originalmente em 4 de agosto de 2012.





domingo, 3 de junho de 2012

Mulherzinha em desuso

"No princípio foram os bordados, o verbo veio depois"  Rubem Alves.

 Há quanto tempo você não remenda uma meia?

Queria escrever um artigo que se intitulasse: Mulherzinha em desuso. Nele eu falaria das artes manuais esquecidas, das artes perdidas.

Até a metade do século passado, digo "século passado", mas foi ontem mesmo, dia desses... Pois então, até a Segunda Grande Guerra, as artes manuais faziam parte do cotidiano das mulheres em todas as culturas. 

Do Pós-Guerra em diante, especialmente no ocidente capitalista, as mulheres começaram cada vez mais fortemente a sair de casa para trabalhar e, com isso, as tarefas domésticas passaram a ser terceirizadas ou feitas de forma rápida e "prática". 

Sinalizei a palavra prática, pois este valor nem sempre foi considerado como um valor positivo, algo a ser desejado. Isso começou a ocorrer desde que o tempo das mulheres (e também dos homens, mas aqui estamos dedicados ao feminino) começou a ser capturado pelo sistema de trabalho externo, deixando as tarefas do dia a dia em segundo plano. Esta situação não é  desconhecida, mas mesmo assim, é pouco problematizada.

Hoje, a cultura dá pouco valor às artes manuais, relacionando-as, quase sempre, a uma figura que, neste provável artigo que escreveria, poderia chamar de "mulherzinha". Como a cultura da atualidade caracterizaria essa mulherzinha? Talvez, uma moça prendada, que sabe tricotar, bordar, costurar, cozinhar. Muito provavelmente seja "do lar", leria romances, revistas de moda e livros de autoajuda. Enfim, alguém improdutivo, de baixa qualificação. Alguém à margem do sistema produtivo. 

Mas essa aparência resistiria a uma crítica que levasse em consideração uma vida de qualidade? O fato das mulheres terem se libertado das tarefas artísticas da casa, a tornaram mais independentes? Ou apenas trocaram o fator de subjugação? O tempo que usávamos para bordar, costurar, tricotar em um passado recente, hoje é usado para quê? Que corpo construímos desde que nossas mãos pararam de atuar criativamente? Que relações mantemos com nossas casas, filhos e companheiros? Que fazemos da habilidade que antes dedicávamos aos trabalhos manuais? A quem pode interessar a troca da autonomia do fazer pela submissão do comprar? O que está implicado no desuso da cultura feminina do fazer manual?

Perguntas muitas que poderiam ser investigadas neste artigo que, talvez, um dia, eu venha escrever.

Impresso e publicado originalmente em 26 de maio de 2012.



Ao redor do buraco tudo é beira



Primeiro você cai num poço.  Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas logo você começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.  A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A  gente não sente medo? A  gente sente um pouco de medo, mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói?  Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê. Caio Fernando Abreu.
Vertigem. A sala pequena, a fala contínua, intensa. A atenção voltada para cada palavra dita ou lida.  Pensares. A aula feita laboratório, experiência. Nós-lâmina. 

Esforço para retirar do texto  o nexo,  busca de sentido. Será isso? Seria o exercício da aula esse? Busca de entendimento? Compreender o  escrito? Entender o  autor e seu dito? É isso a aula? Que aula? 

Dúvidas. Esclarecê-las ou permanecer como tecido vivo na lâmina sob o microscópio quebrado? Descoberta impossível.  Permanecer na tensão do desconhecido. No movido da dúvida. À beira.
A aula como permanente exercício, constante investigação inconclusa, movimento repetido na arte da busca. Aula-experimentação.

Os dizeres ali. Ditribuídos em livros e notas, rassuras em volta do buraco incompreensível. Poço. Nós-atraídos, prestes ao abismo. Lançados? Ainda não. Por enquanto, na beira, equilibrando a palavra a cada dito. Que palavra usar? As palavras começam a ter sentido outro. Não podem mais ser usadas, precisam ser descobridas. Desacostumadas, como diz o poeta na aula. 

Cada pressuposto investigado, declarado, descoberto. Fosso. Esforço para falar. Esforço para pensar. Esforço sujeito ao fracasso. Sujeito? Que sujeito se produz na aula? Que sujeito produz a aula? Que sujeita a aula?

Permanecer na beira ou lançar-se? A aula tensiona. Põe em questão. Vertigem. Abismo. Buraco. Fosso. Poço. Vazio.

Estabelecer o fosso. Viver nas bordas. Refletir no vazio.

A aula segue. Os sujeitos lá. Nós-outros. Mesmos. Inquietos. Como alguém escuta? Como alguém aprende? Como alguém se torna? Tornar-se outro? Tornar-se o mesmo? Tornar-se alguém? Tornar-se o que se é.

Na aula-experiência, a experiência da aula. Experiência? Lâmina? Tecido vivo. Pele. Fala o poeta na aula: o mais profundo é a pele. Aula-superfície. Beira aberta ao acontecimento. Tudo o que acontece e tudo o que se diz acontece e se diz na superfície. 

Impresso e publicado originalmente em 7 de maio de 2011.




A clareira

Por que há algo no lugar do nada? Repito: Por que há algo no lugar do nada? Repito? Não, não adianta, ninguém sabe. Um dos filósofos que se esforçou para tentar desvendar esse mistério foi Heidegger. Poucos conseguem entendê-lo. Na aula de sexta (aquela), fui explicar o tal do Dasein, me dei muito mal. Não há como explicar o inexplicável. Por que há algo no lugar do nada? Sei lá. Como explicar a existência?  O Dasein? Veja se consegue, prezado leitor: “Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz”. Deu? Não? Vou traduzir, talvez fique melhor: “a essência do existir consiste em sua existência”.  Melhorou? Deve querer dizer: temos florestas e nas florestas clareiras, enquanto estamos na clareira, existimos, quando não estamos na clareira, existimos também, mas ninguém vê. Simples assim. 


O assunto era Dasein. A palavra tem tradução exata para o português, mas gostam de usá-la assim mesmo no alemão. Dasein quer dizer existência, mas pode ser entendido também como "ser-aí". Soa estranho. É estranho. Coisa da filosofia que, quase sempre a gente estuda estuda e não nos diz nada, pois não entendemos nada. 

Pois bem. Dasein também tem haver com habitar uma clareira. A clareira estava lá. Estávamos nela. Pressupõe-se a floresta, não a víamos. Na clareira, o assunto era Dasein, mas outra coisa chamava atenção. Não era a leitura, nem a interpretação dos textos. Não eram as questões em debate. Não. O que chamava atenção era a condução da aula. Quem olhasse de fora, não via diferença. Na clareira, todos pareciam alunos. No entanto a professora estava lá. Atenta, perspiscaz, fazendo anotações e dando feedbacks. 

Quando as questões saíam um pouco do assunto e o senso comum começava a sobrevoar a clareira, a professora trazia de volta o fio do pensamento com a alegria e a leveza de um menino empinando pipa. 

De dentro da fala de cada um, na imanência do dito do outro, buscava reconduzir o tema. Ação feita com graça, interesse e pensamento ligeiro, alvo preciso de águia planando para a amplitude do olhar.

De repente, o  foco da águia se lança para fora da aula: a chuva forte bate na vidraça. Minha roupa no varal! A dinâmica do gesto, a expressão da fala, o impulso espontâneo, a surpresa do acontecimento invade a sala.

O compartilhar do cotidiano evoca o aparecimento do próximo mais próximo, potencializando a aula. O acontecimento inventa  uma dobra no tecido da aula. Faz a clareira ser habitada, tornar-se espaço outro no mesmo da aula.

A aula segue, mas a vibração do gesto permanece: a vida da roupa viva no varal sob a chuva. A roupa na clareira, intensa, intempestiva. A aula segue, quem sabe agora já estamos mais próximos de  compreender o movimento afirmativo da águia?

Impresso e publicado originalmente em 14 de maio de 2011.